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Agressão Velada: O sofrimento silencioso entre meninas.

22 de set.
3 min de leitura

Quando pensamos em conflitos escolares, a primeira imagem que costuma vir à mente é a da agressão física ou verbal direta: empurrões no pátio ou provocações em voz alta. Situações essas que precisam ser olhadas e cuidadas com seriedade. Mas existe também um universo de violência sutil, silencioso e profundamente doloroso que acontece majoritariamente entre as meninas, na transição da infância para a pré-adolescência (entre os 8 e os 12 anos) e na adolescência.


A agressão relacional, termo discutido pela pesquisadora Rachel Simmons, refere-se à dinâmica que se apoia no isolamento e na manipulação das relações entre meninas, gerando marcas que, frequentemente, reverberam na percepção de si, impactando as relações e gerando sofrimento.


Aqui não estou falando de conflitos. Afinal, as pessoas discordam, se afastam, voltam a se conversar, se entendem. Conflitos atravessam as relações.  Aqui estou falando de microviolências que expõem, fragilizam e isolam; e do bullying, quando há repetição, intenção de constranger e de intimidar.


Embora símbolos de status e o consumo frequentemente sirvam como álibi para essas disputas no cotidiano escolar, o centro dessa violência é o poder relacional. Trata-se de uma dinâmica de controle sobre quem pertence e quem é “descartado”. Muitas vezes, há uma necessidade de liderar/controlar o grupo, fazendo com que a convivência seja mediada pelo medo, pela barganha de alianças e pela manipulação dos afetos. É nesse campo que se desdobram os jogos de exclusão:

  • O controle sobre as alianças: a disputa rígida pelo título de "melhor amiga", em que uma menina dita quem pode ou não conviver com quem, fragmentando os vínculos;

  • O tratamento de silêncio: ignorar deliberadamente uma integrante do grupo, agindo como “se ela não existisse”;

  • A exclusão social planejada: cochichos, olhares de desdém compartilhados e a negação de espaços comuns de convivência, como a mesa do lanche ou o grupo de trabalhos escolares.


Como tudo ocorre de forma velada, a menina hostilizada frequentemente se sente paralisada e começa a duvidar de suas próprias percepções, já que não há um confronto explícito para validar sua dor.  Esse cenário se agrava porque costuma se dar no próprio círculo de amigas mais próximas. Além disso, a exclusão ou o constrangimento quase sempre vêm disfarçados por falas como: “amiga, era brincadeira” ou “amiga, você não vai se chatear com isso, né?”.


A menina que vive essa violência velada; seja por não compreender a experiência vivida, seja para não deixar de pertencer ao grupo; sorri, faz piada de si, se silencia para não parecer frágil ou “sensível demais”, buscando se encaixar no lugar que esperam que ela ocupe. O grupo tem um papel importante nessa dinâmica quando se silencia, reforçando ou potencializando esse funcionamento para mantê-lo e para manter-se nele. Meninas crescem numa referência social em que devem se adequar para pertencer; do contrário, acreditam correr o risco de ficarem sozinhas.


Infelizmente, o sofrimento dessas meninas encontra um obstáculo adicional no próprio ambiente escolar. Há, primeiramente, uma demora em perceber essa dinâmica já que não é ruidosa; é discreta, é sutil, não tem xingamento e é, muitas vezes, no grupo das meninas que têm bom desempenho pedagógico e que “não dão trabalho”.   Muitas instituições de ensino e famílias adotam um discurso baseado no suposto otimismo, no "seja tolerante", no “seja mais forte”, negando a experiência real vivida e o sofrimento ali presente. Esperar que uma criança sistematicamente excluída pelas colegas apenas "foque no positivo" é não reconhecer a complexidade da situação e não reconhecer a responsabilidade dos adultos no cuidado e no manejo da situação. A experiência dessa violência e as dores vividas não desaparecem quando são ignoradas. Há ainda, do ponto de vista social, rótulos e deslegitimação da experiência como um mero “mimimi" ou "drama" ou exagero.


A agressão relacional precisa ser reconhecida, nomeada e cuidada. É preciso validar a dor de quem sofre. A escola precisa compreender essa dinâmica e intervir criticamente; afinal, para as crianças e adolescentes, pertencer não é detalhe, é parte vital da construção da identidade.  Nesse movimento, o espaço terapêutico soma-se às ações de cuidado, como um lugar de escuta e de acolhimento, contribuindo para a elaboração da experiência, desconstruindo a crença de que precisa se anular ou perder sua espontaneidade para ter o direito de pertencer.


Por fim, vale uma observação de que essa violência velada nas relações femininas não se encerra na infância. Ela se perpetua, frequentemente, nas relações de adolescentes, jovens adultas e mulheres no ambiente acadêmico e no mercado de trabalho. Nesses contextos, ganha novas roupagens, mas continua gerando exclusão, sofrimento e desamparo, muitas vezes silenciada pela omissão de grupos e de lideranças.

 
 
 

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Marina de Castro  |  Psicóloga Clínica  |  CRP 06/84838.

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