Morte e Luto
- 8 de mar.
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Esse é um tema que atravessa toda experiência, afinal, todos nós já vivemos ou viveremos o luto por mortes concretas e simbólicas.
Durante esses meus anos de atendimento, não foi apenas na atuação em UTIs e enfermarias que esse tema se fez presente. Ele ocorre de forma bem frequente, pois afinal é um tema universal e a morte não se restringe apenas à morte física, há também a morte simbólica.
Nos hospitais e centros de saúde, a morte era acolhida e cuidada em diferentes instâncias: à beira do leito de pacientes com quadro clínico grave e sem possibilidades de cura, mas sempre com possibilidade de escuta e de cuidado; junto aos familiares dos pacientes, procurando garantir acolhida e cuidado num momento de intensa angústia; ouvindo e auxiliando os colegas que também são (somos) impactados com a perda de um paciente.
Na clínica, presencial e online, o tema da morte e do luto também se faz presente diante do falecimento de uma pessoa próxima ou pelo impacto diante de mortes violentas e coletivas, o término de um relacionamento e o luto diante da perda do que se tinha e do que se projetava, o luto frente ao diagnóstico de uma doença, do ninho vazio, de ser desligado do trabalho ou na mudança de país.
Diante da morte uma diversidade de sentimentos pode emergir: impotência, alívio, culpa, irritação, pesar, saudade. Muitas vezes, esses sentimentos parecem coexistir gerando, por vezes, conflito consigo e com os outros.
Há, ainda, o fato de o tipo de morte costumar interferir nas reações e no processo de elaboração. Claro que sempre temos que considerar a dinâmica psíquica; a presença de transtorno de humor ou de personalidade; valores culturais, étnicos e religiosos; o tipo de vínculo e as experiências prévias daquele sujeito. Mas, alguns tipos de morte trazem, geralmente, sentimentos comuns para muitas pessoas.
Quando a perda se dá de maneira brusca e inesperada ou no caso de mortes precoces, pode haver maior desorganização, paralisação e impotência. O falecimento de pessoas jovens costuma mobilizar sentimentos de inconformidade na sociedade que o cerca, suscitando questionamentos sobre a vida e a morte, sobre qual será o rumo daquela família dali para frente e pensamentos como: “a vida é fugaz, o que estou fazendo da minha?!”. Diante de mortes como em acidentes, por vezes, pode vir, também, o pensamento: “isso poderia ter acontecido comigo!” mobilizando reflexões ou atitudes até mesmo de risco, ainda que pareça contraditório.
Com a perda, vem o luto que é o processo de elaboração do sentimento de pesar diante o falecimento de uma pessoa ou de um animal de estimação, embora nem sempre seja socialmente legitimado como no caso do luto diante de um aborto, em especial se for no primeiro trimestre, ou de um animal de estimação. O luto implica reconhecer a realidade não só em sua objetividade, e lidar com as emoções e adaptações que advém com a perda já que diz de diversas dimensões: intelectual, emocional, física, social. Por ser um processo individual, e ao mesmo tempo social que afeta todos os membros da família e/ou um grupo (na escola, no ambiente de trabalho), é necessário um tempo para vivenciar o luto. Esse tempo e a forma de vivenciá-lo é única. Importantes autores discutem o tema como: Kübler-Ross, Maria Helena Pereira Franco, Ana Claudia Quintana Arantes, Maria Júlia Kovács, entre outros.
Muitas vezes, a pessoa em luto, além de uma rede de suporte, precisa de acompanhamento psicológico o que nem sempre é uma busca fácil, seja pelo momento vivido e/ou pelos estigmas sociais. Nem toda pessoa em luto precisa de acompanhamento, mas todas as pessoas precisam de respeito e de acolhida diante da sua dor.
Além da morte concreta, ou seja, a morte física que nos angustia ou nos faz vivenciar mudanças, há também a morte simbólica, que é essencial para o amadurecimento e a renovação psíquica durante a vida. A doença é morte simbólica enquanto perda do corpo saudável, do ritmo de vida que se tinha. O desenvolvimento humano (ciclo de vida) implica mortes simbólicas, pois a cada nova fase, nosso corpo, nossa maneira de estar na vida, nossas relações e rotina mudam. As escolhas também implicam, em alguma medida, uma morte simbólica, pois é deixar o conhecido por algo novo.
As mortes simbólicas têm potencial para favorecer o amadurecimento, o processo de reconhecimento de si mesmo (individuação), de descobertas criativas e positivas sobre si e sobre a vida!
A morte é um dos temas comuns a todos nós, a polaridade Vida-Morte tem função estruturante na elaboração simbólica, uma vez que a morte é um arquétipo de transformação.
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